Fazenda Pontal – Nova Guarita (MT)

Fazenda Pontal – Nova Guarita (MT)

Bioma Amazônia

Com uso da integração lavoura-pecuária, manejo de pastagens e estação de monta invertida, fazenda criou um sistema de produção eficiente e com pecuária de ciclo curto.

Quando o produtor José Peres adquiriu a fazenda Pontal, em Nova Guarita (MT), em 1994, a pecuária extensiva era a única atividade viável, apesar da dupla aptidão da área. Aumentar o rebanho e a produtividade eram metas difíceis de alcançar. 

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A situação começou a mudar no início dos anos 2000, quando o produtor e seu filho José Leandro Olivi Peres começaram a usar a agricultura para reduzir custos da reforma de pastagens degradadas ou em degradação. Primeiro foi usado o arroz, depois o sistema Santa Fé, que consorcia milho com braquiária. Após 2005 a soja substituiu o arroz. Mais recentemente, as perdas causadas por porcos do mato e catetos inviabilizaram a cultura do milho e somente a soja continuou sendo cultivada na safra.  

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Fonte: Bruno Pedreira

Os bons pastos formados após a lavoura fizeram com que a integração lavoura-pecuária se tornasse uma estratégia chave na fazenda. Atualmente, da área aberta na propriedade, 50% são ocupados na safra por lavoura de soja. Após a colheita do grão, o capim já é semeado e toda a área passa a ser ocupada pela pecuária no período seco. 

Os pastos de melhor qualidade após a lavoura possibilitam aumento do rebanho e viabilizaram a tecnificação gradual da fazenda.

“Nós percebemos que quanto mais tecnologia a gente introduzia na propriedade, desde maquinário, mão de obra e insumos, a gente conseguia aumentar a produção. Consegui fazer com que tivesse um crescimento através da tecnologia. A gente colocou quase que uma propriedade em cima de outra”, afirma José Leandro Olivi Peres.

Com problemas com a síndrome da morte da braquiária, o produtor se aproximou da Embrapa e iniciou uma parceria que trouxe ainda mais benefícios para a fazenda. Consequentemente, beneficiou também outros produtores, já que a propriedade se tornou uma Unidade de Referência Tecnológica. No local foram validadas tecnologias e desenvolvido um sistema de produção, chamado de Sistema Pontal.

Sistema Pontal

Para resolver o problema da morte do braquiarão, começaram a ser usadas cultivares mais novas da Embrapa, como a BRS Paiguás, BRS Piatã e BRS Xaraés. O manejo dessas forrageiras, somado ao uso da integração lavoura-pecuária resolveram o gargalo da falta de forrageiras no período seco do ano. A boa oferta de alimento ao longo de todos os meses permitiu adotar o terceiro pilar do Sistema Pontal, a estação de monta invertida.

Com essa estratégia, a inseminação artificial das novilhas deixou de ser feita de outubro a dezembro e passou a ocorrer entre julho e setembro. Com isso, os bezerros passam a nascer entre março e julho e são desmamados no período chuvoso.

“Você tem uma pecuária mais rápida, uma pecuária de ciclo curto. Você vai fazer IATF [inseminação artificial em tempo fixo] e não pega um curral com barro. Pega o curral seco, com uma sanidade mais interessante de se trabalhar. O bezerro nasce e com quatro-cinco meses já pega a chuva. E ele vai ser abatido no próprio ano da desmama”, explica o produtor rural.

GráficoDescrição gerada automaticamente com confiança média

Fonte: Bruno Pedreira

Atualmente a fazenda Pontal trabalha com ciclo semi-completo. Os bezerros machos desmamados que atingem determinado peso são encaminhados para a recria na propriedade, ficam nas pastagens de ILP até junho e são terminados em confinamento. Os machos desmamados abaixo do peso definido pela propriedade são comercializados. As fêmeas nelore são inseminadas com 14 meses e com 22 meses já estão com bezerro ao pé. Já as novilhas angus vão para abate com 16 a 17 meses e têm a carne destinada ao mercado gourmet. 

Na recria, de janeiro a março, os animais recebem suplementação de 0,1% do peso vivo (PV), o que resulta em ganhos aproximados de 600g/dia. A partir de abril, são suplementados com 0,3% PV, em pastos permanentes ou pós-lavoura, garantindo ganhos de cerca de 850 g/dia. 

Ao atingirem 420 kg na fase de recria, os animais são levados ao confinamento, onde recebem 1,8% do PV em concentrado e 16 a 17 kg de silagem. Esta dieta proporciona um rápido desenvolvimento aos animais, que são abatidos ao atingirem 510 kg para fêmeas e 550 kg para os machos, aos 16 e 18 meses de idade em média, respectivamente. 

O rendimento de carcaça alcançado tem sido em torno de 59% para machos nelore e F1 angus, e 55% para fêmeas F1. O desempenho por área está em torno de a 15,8 arrobas por hectare ao ano, em que nove arrobas são produzidas nos 120 dias de pastejo nos pastos pós-lavoura.

“Estamos trabalhando com quase 3 UA/ha, uma taxa de prenhez de quase 82% no fechamento geral de todas as categorias, desde precoce primípara, primípara normal e multípara”, celebra José Leandro.

Mais recentemente, o produtor lançou, ainda em pequena escala, a própria marca de carne gourmet para comercializar uma parcela das novilhas precoces da raça angus. 

“Começamos a tentar entender o mercado e passamos a fazer ultrassom na carcaça nas fêmeas angus. Tiramos as 20% melhores, com marmoreio acima de 5 e ratio acima de 47 para fazer a nossa marca. Não é nada grandioso, é uma coisa artesanal. Mas é um grão de areia em que a gente vem buscando um mercado diferente”, explica o produtor.

Parcerias

A agricultura é feita em formato de parceria, na qual o parceiro entra com os insumos químicos, sementes e com a tecnificação. Já a mão-de-obra para semeadura, pulverizações e colheita são de responsabilidade da fazenda Pontal. 

Além dessa parceria, a propriedade tem um grande diferencial na integração de pessoas. Consultores, fornecedores de insumos e prestadores de serviços especializados são envolvidos no processo produtivo e acompanham de perto, buscando obter os melhores resultados. Ao mesmo tempo, a fazenda serve como vitrine para todos eles.

“O grande negócio é esse: primeiro aumento de produtividade; segundo a melhoria de mão de obra, porque você tecnifica sua mão-de-obra tanto agrícola quanto pecuária; e depois a quantidade de parceiros que compram a ideia. A parceria vem para se trabalhar, para aumentar a produção. Então você consegue adquirir tecnologia de pessoas, de empresas e de insumos. Temos pessoas que entendem do processo para que consigam conduzir da melhor forma possível os insumos que a gente adquire”, explica José Leandro.

URT

Por meio de um projeto em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril, a Universidade Federal de Mato Grosso e com apoio de uma rede de parceiros comerciais e técnicos da Fazenda Pontal, a propriedade se tornou uma Unidade de Referência Tecnológica (URT).

As atividades previstas eram para validar o uso de diferentes consórcios forrageiros para a segunda safra. As combinações usadas foram o Sistema Gravataí, que consorcia braquiária com feijão-caupi; braquiária com nabo forrageiro; braquiária com Crotalária ochroleuca; braquiária com trigo mourisco; e um consórcio sêxtuplo com braquiária, nabo forrageiro, trigo mourisco, níger, Crotalária ochroleuca e feijão guandu-anão. Todos eles foram comparados com a pastagem solteira, com a mesma cultivar de braquiária, a BRS Piatã.

Entre os resultados já obtidos, destacam-se a melhoria do teor proteico daqueles consórcios com uso de leguminosas, a boa formação de matéria seca de todos eles e o efeito mitigador de plantas daninhas, sobretudo do consórcio sêxtuplo. Uma infestação de capim camalote na área da pesquisa chegou a ocupar 68% da área com pastagem solteira e menos de 7% na área do consórcio. 

Esses resultados e todos os fundamentos do Sistema Pontal vem sendo apresentados para o setor produtivo em uma série de eventos. O dia de campo da integração lavoura-pecuária JP Agropecuária, realizado em conjunto com Embrapa e Senar-MT já teve seis edições. Quatro delas presenciais, com participação de produtores de diferentes regiões de Mato Grosso. Outras duas edições foram on-line, em 2020, no auge da pandemia de covid-19, e possibilitaram mostrar o sistema produtivo para um público que não teria condições de visitar a propriedade.

As edições on-line e as palestras dos dias de campo presenciais estão disponíveis no Canal da Embrapa no Youtube, na playlist ILPF.

Gabriel Faria (MTB 15.624 MG)

Embrapa Agrossilvipastoril

[email protected]

Colaboração: Bruno Pedreira